Temporais em Juiz de Fora e região revelam fragilidades na política climática e urbana
Os temporais que atingiram a Zona da Mata mineira deixaram pelo menos 47 mortos, cerca de 3 mil pessoas desabrigadas e 400 desalojadas. As cidades mais afetadas foram Juiz de Fora e Ubá, onde enxurradas, deslizamentos de terra e cheias de rios acima do normal provocaram destruição em diversos bairros. Especialistas apontam que a combinação entre fatores climáticos e decisões humanas contribuiu para a gravidade do cenário.
Bairro Paineiras, Juiz de Fora, Minas Gerais Foto: Pedro Kirilos
Para o geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), eventos extremos estão diretamente associados às mudanças climáticas. “Quando estamos falando de extremos, de riscos ambientais, estamos falando de mudanças climáticas”, afirmou. Segundo ele, há uma tendência de aumento na frequência e intensidade de chuvas extremas.
Felippe avalia que a prevenção depende de uma agenda consistente de políticas públicas ambientais, incluindo planejamento urbano, tema que, segundo ele, tem perdido espaço nos últimos anos. Ele critica o que chama de “falsa contraposição” entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico, argumento que, em sua análise, tem sido utilizado no debate político.
Na avaliação do professor, o ordenamento urbano é um dos principais desafios. Ele afirma que o mercado imobiliário influencia a ocupação do território urbano, direcionando populações de menor renda para áreas de maior risco ambiental. “O discurso de que as pessoas pobres não devem ocupar áreas de risco despreza o elemento mais importante: é o capital imobiliário que define quem vai morar aonde”, destacou. Em Juiz de Fora, segundo ele, os bairros mais pobres concentram as maiores perdas humanas e materiais, atingindo uma população com menor capacidade de recuperação.
As áreas de risco, segundo Felippe, já são conhecidas pelo poder público, mas ações de mitigação enfrentam limitações orçamentárias. Levantamento do jornal O Globo, com base em dados do Portal da Transparência, indica que os recursos destinados à Defesa Civil de Minas Gerais caíram de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões entre 2023 e 2025, período que coincide com o segundo mandato do governador Romeu Zema. Procurado, o governo estadual não comentou.
Além de investimentos estruturais, Felippe defende ações de conscientização e capacitação da população. “É preciso ir a campo, conversar com as pessoas, instruir, ter um plano de contingência muito claro”, afirmou, ao mencionar que muitos moradores de áreas de risco não sabem como agir diante de alertas.
De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Juiz de Fora está entre os municípios com maior proporção de pessoas vivendo em áreas suscetíveis a desastres. Em apenas um dia, a cidade registrou quase todo o volume de chuva esperado para o mês de fevereiro. Os impactos foram mais intensos nos bairros Morro do Imperador, Paineiras e Parque Burnier, onde houve registro de resgates.
A topografia montanhosa de Juiz de Fora contribui para a vulnerabilidade a deslizamentos e inundações. Segundo Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, a posição geográfica da cidade favorece a chegada de umidade vinda do mar.
O meteorologista explicou que o Oceano Atlântico apresenta temperaturas cerca de 3°C acima do normal na faixa costeira, o que aumenta a evaporação e, consequentemente, a quantidade de umidade transportada para o continente. Ao encontrar as montanhas da região, esse ar úmido se condensa e provoca chuvas intensas.
“Nos últimos anos, temos mais umidade do que costumamos ter nesta época e isso é uma consequência do aquecimento global”, afirmou Seluchi. Para ele, o aquecimento global está relacionado a decisões tomadas no passado e ao descumprimento de acordos internacionais de redução de emissões. Diante desse cenário, ele defende a adaptação das cidades como medida prioritária.
Seluchi cita o exemplo do Japão, país que enfrenta frequentemente desastres naturais e investe em treinamento da população para evacuação rápida. “A Defesa Civil não evacua um por um. Ali, as pessoas já sabem a rota de fuga”, disse.
O professor Matheus Martins, da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em drenagem urbana, afirma que o crescimento de Juiz de Fora ocorreu a partir do Vale do Rio Paraibuna em direção às encostas, o que aumenta a suscetibilidade a cheias e deslizamentos.
Ele explica que o vale funciona como uma área naturalmente encharcada, onde, em períodos de chuva intensa, a água ocupa a planície de inundação — espaço onde a cidade se expandiu. Entre as soluções possíveis, o professor cita os pôlderes, estruturas que isolam áreas inundáveis com muros e utilizam bombas para retirar o excesso de água gradualmente. A técnica, comum na Holanda, exige manutenção constante, mas pode reduzir impactos em eventos extremos.
Martins também sugere a criação de parques públicos em áreas de várzea e intervenções para aumentar a permeabilidade do solo urbano. Segundo ele, em áreas com cobertura florestal, cerca de 90% da água da chuva infiltra-se no solo. Já em bairros urbanizados, aproximadamente 90% do volume transforma-se em escoamento superficial, contribuindo para alagamentos.
A Prefeitura de Juiz de Fora desenvolve o projeto de macrodrenagem Juiz de Fora + 100, que prevê intervenções nos bairros Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata. Entre 2024 e 2025, o governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas no município por meio do Novo PAC, mas, segundo o Ministério das Cidades, R$ 1,2 milhão foi efetivamente liberado até o momento. Para drenagem urbana, está programado um repasse de R$ 356 milhões.
Enquanto as obras não são concluídas, especialistas reforçam que a combinação entre aquecimento global, vulnerabilidade social e planejamento urbano insuficiente tende a ampliar os impactos de eventos extremos na região.
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